quinta-feira, 18 de julho de 2019

Os Animais na Grécia Clássica

Artigo escrito professor: Edson Silva.

“Para Helena, filha adotiva, alma sem comparação e merecedora de todo louvor”.

É contemplando e refletindo sobre a epígrafe acima que podemos fazer uma leitura crítica da situação dos animais na Grécia Clássica. Se para a tutora ou tutor de Helena (a cachorrinha era considerada uma filha adotiva) essa relação era de amor e emoção, não devemos deduzir que todos os animais na Grécia Clássica eram tão estimados, admirados e amados!

Quem já estudou a História da incipiente ciência grega na época clássica, sabe que Aristóteles (384 – 322 a.C.) era um aficionado por animais. Aristóteles era um entusiasta da observação dos animais na natureza, porém praticava o que hoje se denomina de vivisseção animal. Herdeiro intelectual de várias gerações de médicos, seu próprio pai, Nicômaco, era médico, tinha muito interesse em biologia, e especialmente em morfologia e fisiologia animal. Entre seus escritos contam diversas obras sobre os animais: História dos Animais, As partes dos Animais, A Geração dos Animais, a Marcha dos Animais e Movimentos dos Animais. Percebe-se pelos títulos o fascínio que os animais despertavam em Aristóteles.

Todos os animais têm em comum as partes por onde ingerem os alimentos e onde estes vão ter. Estas partes assemelham-se ou distinguem-se do modo atrás referido. São critérios de diferença a espécie, o excesso, a analogia e a posição. Para além destas, há outras partes em comum na maioria dos animais, aquelas por onde se evacuam os resíduos do processo alimentar; trata-se de facto de uma maioria, já que nem todos os seres as possuem. O órgão por onde o alimento é ingerido chama-se boca, aquele onde os alimentos são recebidos, o ventre. As restantes partes têm múltiplas designações. Como há resíduos de dois tipos, os seres que têm órgãos próprios para receber as excreções líquidas possuem-nos também para os alimentos sólidos. Mas os que possuem estes últimos não são obrigatório que tenham os anteriores. Assim, os que têm bexiga, têm também intestino, enquanto dos que têm intestino nem todos tem bexiga. Chama-se bexiga ao órgão que recebe os resíduos líquidos e intestino ao que recolhe os sólidos (ARISTÓTELES, 2006, p. 58-59).

Levando-se em consideração o contexto histórico e científico de Aristóteles, vê-se a preocupação analítica e descritiva do mesmo, o que não invalida o seu trabalho. Pelo contrário, procura através da análise o aprofundamento necessário para entender o todo, como pode ser visto em toda sua obra sobre os animais. Fazendo observações, inclusive, sobre aspectos etológicos, ciência só desenvolvida e sistematizada no século XX.
      

Aristóteles, todos sabem, é popularmente conhecido como Filósofo, sendo seus trabalhos em outras áreas praticamente desconhecidos pelos leigos. Estudos de física, música, poesia e biologia geralmente não são associados ao nome de Aristóteles pelos não iniciados, apesar do mesmo ser um “espírito totalizante”.

Embora Aristóteles seja um expoente da Ética, ele escreveu Ética a Nicômaco, Eudemo e a Grande Ética, tendo sido, portanto, o sistematizador desta disciplina, Aristóteles não cita uma única linha sobre a ética relativa aos animais. Em vez disso utilizou animais em seus estudos e experimentos. Pode-se argumentar que a temática da ética animal não cabia numa sociedade escravocrata e que tal conteúdo estava longe das preocupações cotidianas dos gregos, pois os mesmos se viam na difícil tarefa da sobrevivência numa sociedade marcada pela desigualdade. Entretanto, como gênio do conhecimento, muito nos intriga que Aristóteles não tenha dito uma única palavra sobre o comportamento humano com relação aos animais.

Se os animais não eram preservados de estudos e experimentos “científicos”, por mais rudimentares que estes fossem, na alimentação, também, eles não eram poupados. A culinária dos gregos clássicos, apesar de rica em frutas, ervas e pães, não desprezava na comida do dia a dia carne de diferentes animais. Porcos, ovelhas, cabras e peixes eram basicamente as dietas carnívoras dos gregos clássicos.

Os homens são os únicos que comem carne cozida, segundo certas regras e depois de oferecerem aos deuses, para honrá- los' a vida do animal que lhes é dedicada com os ossos. Se os grãos de cevada, espalhados sobre a cabeça da vítima e sobre o altar, são associados ao sacrifício cruento, é porque os cereais, alimento especificamente humano, que implica o trabalho agrícola, representam aos olhos dos gregos o modelo das plantas cultivadas que simbolizam, em contraste com uma existência selvagem, a vida civilizada. Triplamente cozidos (por uma cocção interna que a lavra favorece, pela ação do Sol e pela mão do homem, que com eles faz pão), os cereais são análogos às vítimas sacrificiais, animais domésticos cujas carnes devem ser ritualmente assadas ou fervidas antes de serem comidas (VERNANT, 2009, p.65).

Como bons mercadores, os gregos também transportavam, em suas embarcações, animais para trocas com outros povos.  Podemos deduzir que o sofrimento dos animais em transportes insalubres e “infernais” não é situação nova ou do século XXI. Infelizmente tal prática vem de longa data. Prática cruel e horrenda que ofende a dignidade dos animais, sua integridade física e emocional, e bestializa a espécie humana.

Outra circunstância que vitimavam os animais, geralmente porcos, cabras, ovelhas e bois, eram os sacrifícios aos deuses. Os animais eram levados a um altar e tinham suas gargantas cortadas e seus corpos retalhados para jubilo dos deuses.

 Zeus situou os homens no lugar onde eles devem manter- se: entre os animais e os deuses. Sacrificando, o homem se submete à vontade de Zeus, que fez dos mortais e dos Imortais duas raças distintas e separadas. A comunicação com o divino se institui durante um cerimonial de festa, de uma refeição destinada a lembrar de que a antiga comensalidade acabou: deuses e homens já não vivem juntos, já não comem às mesmas mesas (VERNANT, 2009, pg. 66).

As guerras também não poupavam os animais. Cavalos e cães, principalmente, eram vistos como “ferramenta” de guerra e sofriam nos campos de batalhas. Bucéfalo, cavalo de Alexandre, o Grande, que o tinha em afetuosa estima, morreu em consequência de ferimentos causados em batalhas na Índia.

Na Grécia Clássica, um dos eventos de maior interesse eram os jogos olímpicos. Esses, diferentes dos atuais, poderiam ser considerados um ritual religioso e esportivo. Pois os atletas participavam dos jogos em honra ao deus maior: Zeus. Segundo a tradição, os primeiros jogos olímpicos teriam ocorrido em 776 a.C., na cidade de Olímpia, daí o nome, jogos olímpicos.

Entre as provas atléticas realizadas durante a realização dos jogos olímpicos, algumas utilizavam animais, como por exemplo: o Tethrippon, corridas de carroças puxadas por quatro cavalos, corrida equestre, a Apene, que eram corridas de carroças puxadas por mulas, o Calpe, corridas montadas em éguas e o Synoris, corridas de bigas puxadas por dois cavalos.

Os animais na Grécia Clássica estavam intimamente relacionados com o povo grego, fosse aos estudos dos intelectuais, como Aristóteles, na culinária, na guerra, nos rituais religiosos ou mesmo no esporte. Os animais serviam como instrumentos e ferramentas para as mais diversas atividades. Infelizmente essas atividades visavam sempre o prazer e a conveniência humana. Afeto, amor e carinho eram reservados para pouquíssimos animais, como no caso de Helena, “... merecedora de todo o louvor”.

                                                       Sepultura da Cachorrinha Helena

Referências

ARISTÓTELES, História dos animais. Livros I-VI. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2006.

VERNANT, Jean-Pierre, Mito e religião na Grécia antiga. São Paulo: Martins fontes, 2006.