quinta-feira, 18 de julho de 2019

Os Animais no Livro Didático de Biologia - Considerações Bioéticas e Etológicas


Artigo escrito professor: Edson Silva.

O livro didático é uma das “ferramentas” de maior divulgação e uso nas escolas brasileiras, sendo necessários estudos que tratem das considerações bioéticas e etológicas dos animais nos livros didáticos de biologia. Neste paper procurou-se problematizar diferentes concepções de entender os animais a partir do livro didático e a possível práxis pedagógica daí resultante. Reflete sobre as consequências de uma visão mecanicista dos animais e de sua relação com o homem. Analisa a necessidade de abordar de forma sistematizada esta temática na aula de biologia e dar um encaminhamento bioético. Sendo uma pesquisa básica e de cunho bibliográfico, com base na literatura interdisciplinar que permeia a temática, faz uso da abordagem qualitativa. Sugere alternativas pedagógicas para o trabalho com comportamento animal em sala de aula na disciplina de biologia do ensino médio. Mostra a responsabilidade de autores e professores ao escreverem e escolherem, respectivamente, livros didáticos de biologia que serão recurso pedagógico imprescindível na atual conjuntura educacional brasileira.Definir a função do livro didático escolar não é tarefa fácil, pois por suas páginas perpassam discursos científicos que a despeito de sua pretensa neutralidade científica faz parte de um contexto histórico-social que incute aí discursos e visões de homem, mundo, sociedade e ciência. Por isso, caracterizar a função que o livro didático exerce ou deve exercer no processo pedagógico escolar é bastante complexo (FRISON et al., 2009).Segundo Gérard e Roegiers (1998, p.19) o livro didático é “um instrumento, intencionalmente estruturado para se inscrever num processo de aprendizagem, com fim de lhe melhorar a eficácia.” É lógico que esta eficácia está em consonância com a capacidade técnica e pedagógica do professor em lidar com este material. De acordo com Romanatto (2009), a legislação sobre o livro didático no Brasil se inicia no Estado Novo em 1938 com o Decreto-Lei Nº 1.006. Neste contexto histórico o livro didático era considerado mais um instrumento ideológico para a educação das massas, tendo o professorado que escolher o mesmo a partir de uma lista pré-estabelecida pelo Governo Federal (NÚÑEZ et al., 2003).Apesar do crescente avanço da informática e das muitas possibilidades de interação no mundo virtual, a maioria das escolas brasileiras ainda tem no livro didático o principal meio de ação pedagógica (FRISON et al., 2009). Isso se dá devido à grande extensão territorial do país, o pouco investimento na capacitação do professor e a resistência de muitos em trabalhar com novas tecnologias.Considerando que o livro didático possui um forte discurso conceitual, o corpo docente deve ter uma sólida formação científica e pedagógica para poder avaliar os conteúdos e sua matriz epistemológica (NÚÑEZ et al., 2003).Como instrumento de formação de valores, concepções e visões de mundo, o livro didático é segundo Lopes (2007), “uma versão didatizada” dos fenômenos humanos e naturais, em suma, do conhecimento, sendo, portanto, imperativo todo cuidado na sua escolha e no seu manuseio intelectual.No mundo contemporâneo, onde os avanços das Ciências Biológicas são cada vez mais avassaladores temas importantes e controversos emergem da própria prática científica e da dinâmica social. Procedimentos como clonagem, transgenia e células tronco são vistos como maravilhas da ciência moderna, entretanto, o debate ético destas questões são muitas vezes superficiais ou enviesados.Sendo a Biologia disciplina curricular obrigatória nas escolas brasileiras, os profissionais que trabalham com esta tem grande responsabilidade técnica e pedagógica, mais também ética. Pois se a Biologia é tida como ciência natural, seus resultados impactam diretamente a dimensão humana e a vida em sociedade (SANTA CATARINA, 1998).Uma das temáticas de muito interesse dentro do espectro das Ciências Biológicas é, sem dúvida, a Zoologia. Área extremamente complexa e rica de significados é uma das mais “festejadas” pelos alunos. Conhecer a anatomia, a fisiologia e principalmente o comportamento dos animais traz muita satisfação ao corpo discente. Estes podem vivenciar experiências ao estudar os animais, principalmente os das zonas rurais, que fazem parte do seu cotidiano (SANTOS; TERÁN, 2013).Entretanto, estudar apenas os aspectos biológicos dos animais não é o suficiente, notadamente numa sociedade onde os mesmos são vítimas das mais diversas formas de violência. Precisa-se avançar nas questões ético-etológicas e fazer a crítica de vermos os animais como objetos ou mercadorias.Com os avanços da neurociência cognitiva animal, já se sabe que muitos dos sentimentos humanos, como dor, tristeza, alegria, irritação, ansiedade, estresse, ciúmes, empatia etc., são compartilhados pelos animais não-humanos. Como se pode atestar na Declaração de Cambridge sobre a Consciência Animal (2012), neurocientistas renomados, como Philip Low, afirmam que até mesmo a consciência faz parte do repertório cognitivo de muitos animais não-humanos. Portanto, tratá-los como objetos ou mercadorias é um sério problema bioético que a humanidade precisa resolver.A Bioética como reflexão de uma prática é disciplina muito recente. O próprio termo só surgiu no inicio dos anos 70 nos Estados Unidos com o biólogo e médico Van Rensselaer Potter. Potter fazia uma séria crítica sobre a cisão, na ciência, dos aspectos biológicos e éticos, considerando um equivoco tal fragmentação (PALÁCIOS; MARTINS; PEGORARO, 2001). Apesar de Potter ser oriundo da área da saúde, sua preocupação ética, enquanto intelectual, incluía outras esferas da atividade humana e da natureza. Também faziam parte de suas preocupações as questões éticas relacionadas aos animais e ao meio ambiente.Embora o sentido do termo não tenha mais o significado atribuído por Potter, que pensava que a Bioética poderia garantir a sobrevivência do planeta, ela tornou-se uma das mais importantes áreas de estudo na atualidade.Trabalhando com temas complexos e polêmicos, a Bioética tem como responsabilidade o estudo sistemático de caráter multidisciplinar, da conduta humana na área da ciência da vida e da saúde, na medida em que esta conduta é examinada à luz dos valores e princípios morais (FORTES 1994).Como tema transversal, proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais – os PCNs, a ética é uma possibilidade de trabalho pedagógico que perpassa várias temáticas, inclusive o meio ambiente, do qual os animais não-humanos fazem parte. Portanto, fazer uma ligação interdisciplinar entre ética, meio ambiente e a responsabilidade humana para com a preservação da natureza é muito salutar. O próprio PCN de ética (p.63) nos diz que: “... temas como a preservação da natureza diz respeito diretamente à vida humana...”.No sentido de tomar decisões e preservar a vida e a natureza, o conhecimento básico das Ciências Biológicas pelo cidadão é de precípua importância (CASAGRANDE, 2006). Por isso a necessidade do ensino desta disciplina, no currículo escolar, ser tratada pedagogicamente com responsabilidade técnica, ética e política.Uma das temáticas que mais carece de estudo na escola secundária, na disciplina de Biologia, é a Etologia, ou o estudo do comportamento animal. Ciência fascinante, ela é imprescindível para o entendimento de como os animais se comportam em termos sociais e principalmente cognitivos (FARIAS; BESSA; ARNT, 2012). Entretanto este conteúdo é tratado de forma fragmentada ou superficial nos currículos das ciências biológicas do ensino médio. Segundo Capra (1996), este reducionismo epistêmico e metodológico não se adéqua mais a realidade, pois os fenômenos humanos e naturais estão interligados e são interdependentes.A etologia que teve grande desenvolvimento com Konrad Lorenz (1903-1989) e Niko Tinbergen (1907-1988), tem por objetivo o estudo sistemático do comportamento animal. Estudos sobre animais despertam interesse desde a Grécia Clássica, como se pode observar nos escritos de Aristóteles.[...] assim devemos nos aventurar no estudo de todos os tipos de animais sem hesitar, pois cada um e todos revelarão para nós algo natural e belo. Ausência de acaso e condução de tudo para um fim são encontradas no trabalho da natureza no mais alto grau, e o fim resultante de suas gerações e combinações é uma forma de beleza (ARISTÓTELES, 1965, I645BI apud ABREU, 1994, p. 35).Konrad Lorenz e Niko Tinbergen foram dois ícones dos estudos etológicos, Lorenz era austríaco e formado em medicina, tendo feito seu doutorado em zoologia na Universidade de Viena. Já Tinbergen era holandês, sendo professor na universidade de Oxford durante muitos anos. Ambos realizaram estudos, na tradição da Teoria da Evolução, que revolucionaram os estudos comportamentais sobre os animais. Konrad Lorenz criou o conceito de "imprinting", ou estampagem, que é o fenômeno que algumas aves apresentam de se afeiçoarem ao primeiro ser vivo que veem em movimento. O estudo deste fenomeno é muito importante para se entender como se dá o processo de apego entre mãe e filhos em determinadas espécies de aves (ALCOCK, 2011).Mais recentemente temos a neurociência cognitiva animal, com trabalhos de imageamento cerebral de animais mamíferos, esta pode comprovar o que já há muito tempo desconfiava-se, grande parte dos animais não-humanos, senão todos, compartilham de muitas caracteristicas tidas humanas (BEKOFF, 2010). Sentimentos de altruísmo e indignação, afetividade e ira já não podem ser considerados atributos exclusivamente humanos!Portanto, sendo os animais um dos entes essenciais da natureza, esses devem ser abordados de maneira significativa no processo de ensino-aprendizagem. E o livro didático tem uma séria responsabilidade ao apresentar os animais como temática pedagógica. Se conhecer a biologia dos animais é fundamental, não menos é conhecer os seus direitos e as implicações daí resultantes. Gomes e Felipe (2014) nos dizem que elevar os animais ao cerne da ética e da abordagem Sócio-Ambiental é discutir e refletir sobre o seu status na sociedade contemporânea e o tratamento que temos dispensado aos mesmos.O ensino de Biologia tem sido uma das áreas de maiores dificuldades na escola, pois seu ensino necessita de aportes materiais (microscópios, lupas, lâminas, tubos de ensaio etc.,) que na maioria das escolas brasileiras não existem. Essas dificuldades podem desestimular o professor e os alunos num envolvimento mais frutífero com a matéria (SANTOS; TÉRAN, 2009). No caso do estudo do comportamento animal, existe uma complexidade metodológica e teórica que precisa ser vencida, pois há formas e meios de levar estes conteúdos fascinantes aos alunos (FARIAS, 2011).Muitas são as atividades, sobre comportamento animal, que podem ser feitas para colaborar nas aulas de biologia. A visita a um zoológico pode, por exemplo, despertar a curiosidade dos alunos referente a diversos aspectos do comportamento animal, como hábitos alimentares, estratégias de defesa, brincadeiras, etc. A observação de pássaros, formigas, e aracnídeos no ambiente natural, que pode ser a própria escola, um parque próximo, a praia (várias escolas do país são próximas do mar), ou uma reserva ecológica são oportunidades interessantes para o aprendizado. Matérias em televisão, documentários, jornais e revistas são ferramentas didáticas, se bem trabalhadas, podem aguçar a curiosidade e desenvolver o espírito crítico nos alunos.Um aprendizado crítico e reflexivo, sobre os diversos problemas que a humanidade e a natureza enfrentam, precisa ser construído. Saber relacionar a produção excessiva de lixo e que o descarte destes em rios, mares e lagos leva os animais aquáticos à morte é um conhecimento importante para uma tomada de consciência e uma posição política de conservação.A biologia é uma ciência fascinante e importantíssima, entretanto seu trabalho pedagógico na escola precisa ir além do reducionismo. Nenhum fator biológico está desprovido de caráter social, cultural ou econômico.Através deste estudo é possível deduzir a importância e a responsabilidade da escolha do livro didático. Como ferramenta importante no processo de ensino-aprendizagem, o livro didático é, ainda, na maioria das escolas brasileiras, uma verdadeira bússola do que ensinar. Portanto, todo cuidado científico-epistêmico se faz necessário, mas também todo o cuidado ético.Escolher um livro pelo seu embasamento teórico de qualidade é muito salutar. Livros que tratem à fisiologia animal, a anatomia, a evolução e a interface ecológica de maneira rigorosa e pautada nas mais recentes descobertas científicas é obrigação do corpo docente. Porém, em hipótese alguma, a ética relativa de tratar os animais, seu comportamento social, sua cognição e acima de tudo seus direitos, não pode ser desprezada. Isso é uma condição sine qua non para uma ilustração crítica do conteúdo zoológico.Sendo a etologia uma ciência extremamente interessante e útil para o entendimento, conservação e respeito às espécies, não há motivo para desprezá-la no contexto curricular da disciplina de ciências biológicas do ensino médio. Há mesmo uma forte ligação entre a etologia e a ética, pois é muito mais compreensível o cuidado de um adolescente, com os conhecimentos adquiridos na disciplina de biologia, com um cão “errante”, do que a de um jovem que nunca ouviu falar em senciência ou especismo. O conhecimento, inclusive neurocientífico, de que um animal não-humano possui capacidade de sentir dor, ansiedade e estresse podem levar a modificações de comportamentos sobre os animais não-humanos.No atual estágio científico e tecnológico da humanidade, não há mais porque tratar os animais não-humanos como objetos ou mercadorias. O antropocentrismo que justificava todo tipo de comportamento reprovável com relação aos mesmos, não é mais lógico. E o livro didático de biologia, não tendo neutralidade científica, precisa se posicionar. Seus autores devem estar cientes de que seus escritos, na maioria das salas de aula do país, vão ser a voz corrente do conhecimento científico, mais que esse conhecimento científico não pode vir sem contrapontos e sem pontuações éticas!

Referências

ABREU, Yma Souza de. O método de Aristóteles para o estudo dos seres vivos. Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência. Rio de Janeiro, n. 11, p. 35-40, 1994.

ALCOCK, John. Comportamento animal. Uma abordagem evolutiva. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.BEKOFF, Marc. A Vida emocional dos animais: alegria, tristeza e empatia nos animais. São Paulo: Cultrix, 2010.

BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais – apresentação dos temas transversais e ética. 2. ed. Brasília: MEC, 2000.CAPRA, A teia da vida. São Paulo: Cultrix, 1996.

CASAGRANDE, G. L. A Genética no livro didático de biologia. 2006. 121 f. Dissertação (Mestrado em Educação Científica e Tecnológica) – Centro de Ciências da Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006.

FARIAS, Joiciane Gonçalves; BESSA, Eduardo; ARNT, Ana de Medeiros. Comportamento animal no ensino de biologia: possibilidades e alternativas a partir da análise de livros didáticos deEnsino Médio. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias. Vigo, Espanha, Vol. 11, n. 2, p. 365-384, 2012.

______In: BESSA, Eduardo; ANA, Arnt. (Orgs.). Comportamento animal: teoria e prática pedagógica. Porto Alegre: Mediação, 2011.

FORTES, Paulo Antônio de Carvalho. Reflexões sobre a bioética e o consentimento esclarecido. Bioética, Brasília, v. 2, p. 129-135, 1994.

FRISON, Marli Dallagnol et al. Livro didático como instrumento de apoio para construção de propostas de ensino de ciências naturais. In: VII Enpec - Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências, 2009, Florianópolis - SC. Anais do Encontro Nacional de Pesquisadores em Educação em Ciências. Florianópolis, 2009.

GÉRARD, François-Marie; ROEGIERS, Xavier. Conceber e avaliar manuais escolares. Porto: Porto Editora, 1998.GOMES, Dóris; FELIPE, Sônia Terezinha. Uma ética ambiental: a partir da natureza como um movimento vital. Interthesis, Florianópolis, V. 11, n. 01, p. 213-230, 2014.

LOPES, Alice Casimiro. Currículo e epistemologia. Ijuí: Editora unijuí, 2007.LOW, PHILIP et al. Declaração de Cambridge sobre consciência animal. Disponível em http://fcmconference.org/. Acesso em: 04 de set. 2014.

NÚÑEZ, Isauro Beltrán et al. A seleção dos livros didáticos: um saber necessário ao professor. o caso do ensino de ciências. Revista de los lectores Disponível em: http://www.campus-oei.org/revistadeloslectores/427beltran.pdf. 2003. Acesso em: 01 set. 2014.

PALÁCIOS, MARTINS, PEGORARO. Organizadores. Ética, ciência e saúde: desafios da bioética. Petrópolis: Vozes, 2001.

ROMANATTO, Mauro Carlos. O livro didático: alcances e limites. Disponível em http://www.sbempaulista.org.br/epem/anais/mesas redondas/Mr19-Mauro.doc. Acesso em 03 set. 2014.

SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. Proposta curricular de Santa Catarina: Educação Infantil, Ensino fundamental e Médio: Disciplinas curriculares. Florianópolis: COGEN, 1998.

SANTOS, S. C. S., TERÁN, A. F. Condições de ensino em zoologia no nível fundamental: o caso das escolas municipais de Manaus – AM. Areté - Revista Amazônica de Ensino de Ciências. Manaus, v. 6, n. 10, p. 01-18, jan-jun, 2013.

______. Possibilidade do uso de analogia e metáfora no processo de ensino-aprendizagem no ensino de zoologia no 7º ano do ensino fundamental. In: Congresso Norte Nordeste de Ensino de Ciências e Matemática, 8. Anais. Boa Vista: UERR, 2009. Boa Vista (CD-ROM).

Experimentação Animal nas Ciências Biomédicas: Há Justificabilidade Epistemológica?

Artigo escrito professor: Edson Silva.

A ciência é uma produção humana, portanto, está vinculada a um contexto histórico e social, do qual, dialeticamente, dá e recebe influências de diversas ordens: econômicas, políticas e sociais.  Apesar do mito da neutralidade científica (Japiassu, 1975), sabe-se que a ciência é um processo dinâmico, cujo conteúdo está perpassado de valores e de visões de homem, mundo e sociedade. E que a sua racionalidade é a racionalidade da sua época, ou seja, de um determinado momento histórico-social. Portanto, estudos que revelem a essência da própria ciência, é condição sine qua non para conhecer e desvelar seus paradigmas.

Desde que Platão e Aristóteles propuseram uma diferenciação entre saber e opinião, ou episteme e doxa, o homem tenta conhecer de modo mais aprofundado e seguro a realidade (CUPANI, 1989).  Para isso criou e aprimorou através da reflexão e da construção de novos instrumentos teóricos uma forma paradigmática de se fazer ciência, o método científico. Por método científico entende-se um procedimento racional e regular para alcançar a “verdade” científica, esta, contraditoriamente, não é absoluta.

 Uma das características mais importantes para a ciência contemporânea é a objetividade.   Por objetividade entendemos com Rabuske (1987) “adequação ao objeto”.  Entretanto, como nos alerta o próprio Rabuske (1987), objeto não é unicamente a coisa material, e nem realidade, pois conceitos abstratos e imateriais também podem ser objeto da ciência, como por exemplo, o objeto da matemática.

A preocupação com a objetividade do conhecimento é uma característica que vem de longa data, Kant, Descartes, Hume entre outros, cada qual a seu modo, debruçaram-se sobre esta questão, foi, porém, com Augusto Comte e seu Positivismo que a objetividade se firmou e passou a ser uma categoria de destaque no debate científico-filosófico.

O termo Positivismo provém do latim positum e significa o que está posto, colocado.  O Positivismo tem este nome porque ele pressupõe que a realidade é o que está aí, está posto, colocado na nossa frente! (GUARESCHI, 1991). Por isso mesmo no dizer de Comte (1973, p. 9), a ciência deve se preocupar com os fatos observáveis, pois a essência dos fenômenos é, segundo seu entendimento, inacessível,

No estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as suas causas íntimas, para descobrir, graças ao raciocínio e à observação, suas leis efetivas, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos resume-se de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares alguns fatos gerais.

Com este enunciado pode-se deduzir a preocupação de Augusto Comte com a questão da objetividade e da observação, atualmente dois pilares cruciais no discurso científico.  Discurso este que tem por incumbência a conformidade do conhecimento com a realidade.  Porém esta conformidade não é tarefa fácil, notadamente do aspecto ontológico, pois se a ciência, mesmo a positivista, procura uma aproximação mais correta possível com o fenômeno estudado, é sabido que o mundo objetivo, concreto, não se deixa captar por uma ciência metodologicamente enviesada. O dado na experiência empírica, nas ciências Empírico-Formais, é como o próprio nome anota um dado, ou dados, enquanto conjunto de informações científicas, não é mais do que um momento do processo do conhecer científico. Sendo por isso questionável a suposta apreensão do “mundo real” pela ciência empírica positivista. Portanto, se a apreensão não se dá ipso facto, é no mínimo muito controversa a experimentação animal como pressuposto correlacional epistêmico-biomédico para aplicação em seres humanos.  Portanto, o que deve ser considerado na atividade científica com relação à experimental animal é um questionamento crucial, existe justificabilidade epistemológica para tal prática e transposição dos seus resultados para os seres humanos?  Essa é uma pergunta basilar na metodologia científica que usa animais como modelos experimentais.

Cientifizando a vivissecção

Uma das práticas na ciência que tem sido objeto de muita polêmica é, sem dúvida, a experimentação animal.  Aplicação milenar e consagrada na ciência, Aristóteles e Hipócrates, na Grécia Clássica, já utilizavam animais em seus estudos, vive atualmente um autêntico dilema ético e, sobretudo epistemológico. Olhando para a História da Ciência podemos afirmar que foi com Galileu que a técnica e a observação foram alçadas a categorias matematizáveis, ou seja, observa-se, experimenta-se e comprova-se estatisticamente. Ora, se é com Galileu que temos uma nova forma de olhar o fenômeno nas ciências físicas, o mesmo, pode-se dizer, acontece com a fisiologia. William Harvey (1578-1657), médico e fisiologista inglês, foi um grande entusiasta da observação direta, principalmente em animais. Como resultado de seus estudos, publicou em 1628 “Exercitatio Anatomica de Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus (Estudo Anatômico sobre o Movimento do Coração e do Sangue nos Animais)”, obra na qual inaugura a extrapolação das conclusões observadas diretamente em animais para os seres humanos.  

A partir deste contexto de pesquisa e na esteira do Sistema Filosófico Cartesiano, que via os animais através de uma lente mecanicista, inclusive com a ideia que os mesmos não eram suscetíveis à dor, os animais não humanos passaram a fazer parte rotineira dos laboratórios de pesquisa em universidades e institutos.  Era lógico pensar, de acordo com  as concepções cristãs e cartesianas que se os animais estavam sujeitos aos homens e não eram sensíveis a dor, que os mesmos pudessem ser utilizados como cobaias em experiências e trabalhos científicos.

A situação para os animais se agrava, a partir do século XIX, com a elevação da biologia ao status de ciência positiva, notadamente com os trabalhos realizados pelo fisiologista francês Claude Bernard (1813-1878), Bernard tinha verdadeira obsessão pela observação direta e pela experimentação, inclusive era adepto da vivissecção, utilizando animais vivos em suas experiências, seu desprezo pela dor dos animais era tanta, como pode ser lido em sua "Introdução à Medicina Experimental", publicada em 1865, que sua esposa, Marie-Françoise Martin, mais conhecida como Fanny Bernard, separou-se do mesmo por não concordar com tanta tortura e descaso pelos animais. Pouco tempo depois, Fanny Bernard tornou-se militante e defensora da causa Antivivisseccionista.

A ciência no mundo contemporâneo, especialmente as ciências biomédicas, tem tido um discurso pragmático que a coloca como “juiz” e avalista de inúmeros procedimentos e produtos (medicamentos, cosméticos, higiene, exames, e outros), como se infalível fosse. Agregada a publicidade midiática os produtos oriundos das ciências biomédicas são apresentados ao público leigo como panaceia para todos os males. Famosa é a propaganda de uma marca de creme dental, apresentada por uma bela odontóloga (?) com seu jaleco alvo a reluzir! Prometendo, como diz o ditado, mundos e fundos!

Passado o riso, o que fica é a perplexidade do endeusamento de uma tarefa da vida, sim, a ciência é bela, é útil, é interessante, nos dá uma vida mais agradável, aos que podem comprar, e nos instiga a curiosidade. Entretanto a ciência e seus cientistas também já nos deram e nos dão muito desgosto, como as bombas atômicas e os pesticidas que infestam a agricultura.
Porém parece que a parte duvidosa da ciência não tem muita importância, como no pragmatismo insano onde os “fins justificam os meios”.
        
        
Referências

COMTE, A. Curso de filosofia positiva. 2ª Edição.  São Paulo: Abril Cultural, 1973.

CUPANI, A. A Objetividade científica como problema filosófico.

GUARESCHI, P. Sociologia crítica: alternativas de mudança. 25ª Edição, Porto Alegre: Mundo Jovem, 1991.

JAPIASSU, Hilton. O mito da neutralidade científica. Rio de Janeiro, Imago, 1975.

RABUSKE, E. Epistemologia das Ciências Humanas. 1ª Edição, Caxias do Sul: EDUCS, 1987.

GUARESCHI, P. Sociologia crítica: alternativas de mudança. 25ª Edição, Porto Alegre: Mundo Jovem, 1991.


Os Animais na Grécia Clássica

Artigo escrito professor: Edson Silva.

“Para Helena, filha adotiva, alma sem comparação e merecedora de todo louvor”.

É contemplando e refletindo sobre a epígrafe acima que podemos fazer uma leitura crítica da situação dos animais na Grécia Clássica. Se para a tutora ou tutor de Helena (a cachorrinha era considerada uma filha adotiva) essa relação era de amor e emoção, não devemos deduzir que todos os animais na Grécia Clássica eram tão estimados, admirados e amados!

Quem já estudou a História da incipiente ciência grega na época clássica, sabe que Aristóteles (384 – 322 a.C.) era um aficionado por animais. Aristóteles era um entusiasta da observação dos animais na natureza, porém praticava o que hoje se denomina de vivisseção animal. Herdeiro intelectual de várias gerações de médicos, seu próprio pai, Nicômaco, era médico, tinha muito interesse em biologia, e especialmente em morfologia e fisiologia animal. Entre seus escritos contam diversas obras sobre os animais: História dos Animais, As partes dos Animais, A Geração dos Animais, a Marcha dos Animais e Movimentos dos Animais. Percebe-se pelos títulos o fascínio que os animais despertavam em Aristóteles.

Todos os animais têm em comum as partes por onde ingerem os alimentos e onde estes vão ter. Estas partes assemelham-se ou distinguem-se do modo atrás referido. São critérios de diferença a espécie, o excesso, a analogia e a posição. Para além destas, há outras partes em comum na maioria dos animais, aquelas por onde se evacuam os resíduos do processo alimentar; trata-se de facto de uma maioria, já que nem todos os seres as possuem. O órgão por onde o alimento é ingerido chama-se boca, aquele onde os alimentos são recebidos, o ventre. As restantes partes têm múltiplas designações. Como há resíduos de dois tipos, os seres que têm órgãos próprios para receber as excreções líquidas possuem-nos também para os alimentos sólidos. Mas os que possuem estes últimos não são obrigatório que tenham os anteriores. Assim, os que têm bexiga, têm também intestino, enquanto dos que têm intestino nem todos tem bexiga. Chama-se bexiga ao órgão que recebe os resíduos líquidos e intestino ao que recolhe os sólidos (ARISTÓTELES, 2006, p. 58-59).

Levando-se em consideração o contexto histórico e científico de Aristóteles, vê-se a preocupação analítica e descritiva do mesmo, o que não invalida o seu trabalho. Pelo contrário, procura através da análise o aprofundamento necessário para entender o todo, como pode ser visto em toda sua obra sobre os animais. Fazendo observações, inclusive, sobre aspectos etológicos, ciência só desenvolvida e sistematizada no século XX.
      

Aristóteles, todos sabem, é popularmente conhecido como Filósofo, sendo seus trabalhos em outras áreas praticamente desconhecidos pelos leigos. Estudos de física, música, poesia e biologia geralmente não são associados ao nome de Aristóteles pelos não iniciados, apesar do mesmo ser um “espírito totalizante”.

Embora Aristóteles seja um expoente da Ética, ele escreveu Ética a Nicômaco, Eudemo e a Grande Ética, tendo sido, portanto, o sistematizador desta disciplina, Aristóteles não cita uma única linha sobre a ética relativa aos animais. Em vez disso utilizou animais em seus estudos e experimentos. Pode-se argumentar que a temática da ética animal não cabia numa sociedade escravocrata e que tal conteúdo estava longe das preocupações cotidianas dos gregos, pois os mesmos se viam na difícil tarefa da sobrevivência numa sociedade marcada pela desigualdade. Entretanto, como gênio do conhecimento, muito nos intriga que Aristóteles não tenha dito uma única palavra sobre o comportamento humano com relação aos animais.

Se os animais não eram preservados de estudos e experimentos “científicos”, por mais rudimentares que estes fossem, na alimentação, também, eles não eram poupados. A culinária dos gregos clássicos, apesar de rica em frutas, ervas e pães, não desprezava na comida do dia a dia carne de diferentes animais. Porcos, ovelhas, cabras e peixes eram basicamente as dietas carnívoras dos gregos clássicos.

Os homens são os únicos que comem carne cozida, segundo certas regras e depois de oferecerem aos deuses, para honrá- los' a vida do animal que lhes é dedicada com os ossos. Se os grãos de cevada, espalhados sobre a cabeça da vítima e sobre o altar, são associados ao sacrifício cruento, é porque os cereais, alimento especificamente humano, que implica o trabalho agrícola, representam aos olhos dos gregos o modelo das plantas cultivadas que simbolizam, em contraste com uma existência selvagem, a vida civilizada. Triplamente cozidos (por uma cocção interna que a lavra favorece, pela ação do Sol e pela mão do homem, que com eles faz pão), os cereais são análogos às vítimas sacrificiais, animais domésticos cujas carnes devem ser ritualmente assadas ou fervidas antes de serem comidas (VERNANT, 2009, p.65).

Como bons mercadores, os gregos também transportavam, em suas embarcações, animais para trocas com outros povos.  Podemos deduzir que o sofrimento dos animais em transportes insalubres e “infernais” não é situação nova ou do século XXI. Infelizmente tal prática vem de longa data. Prática cruel e horrenda que ofende a dignidade dos animais, sua integridade física e emocional, e bestializa a espécie humana.

Outra circunstância que vitimavam os animais, geralmente porcos, cabras, ovelhas e bois, eram os sacrifícios aos deuses. Os animais eram levados a um altar e tinham suas gargantas cortadas e seus corpos retalhados para jubilo dos deuses.

 Zeus situou os homens no lugar onde eles devem manter- se: entre os animais e os deuses. Sacrificando, o homem se submete à vontade de Zeus, que fez dos mortais e dos Imortais duas raças distintas e separadas. A comunicação com o divino se institui durante um cerimonial de festa, de uma refeição destinada a lembrar de que a antiga comensalidade acabou: deuses e homens já não vivem juntos, já não comem às mesmas mesas (VERNANT, 2009, pg. 66).

As guerras também não poupavam os animais. Cavalos e cães, principalmente, eram vistos como “ferramenta” de guerra e sofriam nos campos de batalhas. Bucéfalo, cavalo de Alexandre, o Grande, que o tinha em afetuosa estima, morreu em consequência de ferimentos causados em batalhas na Índia.

Na Grécia Clássica, um dos eventos de maior interesse eram os jogos olímpicos. Esses, diferentes dos atuais, poderiam ser considerados um ritual religioso e esportivo. Pois os atletas participavam dos jogos em honra ao deus maior: Zeus. Segundo a tradição, os primeiros jogos olímpicos teriam ocorrido em 776 a.C., na cidade de Olímpia, daí o nome, jogos olímpicos.

Entre as provas atléticas realizadas durante a realização dos jogos olímpicos, algumas utilizavam animais, como por exemplo: o Tethrippon, corridas de carroças puxadas por quatro cavalos, corrida equestre, a Apene, que eram corridas de carroças puxadas por mulas, o Calpe, corridas montadas em éguas e o Synoris, corridas de bigas puxadas por dois cavalos.

Os animais na Grécia Clássica estavam intimamente relacionados com o povo grego, fosse aos estudos dos intelectuais, como Aristóteles, na culinária, na guerra, nos rituais religiosos ou mesmo no esporte. Os animais serviam como instrumentos e ferramentas para as mais diversas atividades. Infelizmente essas atividades visavam sempre o prazer e a conveniência humana. Afeto, amor e carinho eram reservados para pouquíssimos animais, como no caso de Helena, “... merecedora de todo o louvor”.

                                                       Sepultura da Cachorrinha Helena

Referências

ARISTÓTELES, História dos animais. Livros I-VI. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2006.

VERNANT, Jean-Pierre, Mito e religião na Grécia antiga. São Paulo: Martins fontes, 2006.