quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Metodologia Científica e Experimentação Animal

      Desde que Platão e Aristóteles propuseram uma diferenciação entre saber e opinião, ou episteme e doxa, o homem tenta conhecer de modo mais aprofundado e seguro a realidade (CUPANI, 1989).  Para isso aprimorou através da reflexão e da construção de novos instrumentos teóricos uma forma paradigmática de se fazer ciência, o método científico. Por método científico entende-se um procedimento racional e regular para alcançar a “verdade” científica, esta, contraditoriamente, não é absoluta.
    Uma das características mais importantes para a ciência contemporânea é a objetividade.   Por objetividade entendemos com Rabuske (1987) “adequação ao objeto”.  Entretanto, como nos alerta o próprio Rabuske (1987), objeto não é unicamente a coisa material, e nem realidade, pois conceitos abstratos e imateriais também podem ser objeto da ciência, como por exemplo, o objeto da matemática.
       A preocupação com a objetividade do conhecimento é uma característica que vem de longa data, Kant, Descartes, Hume entre outros, cada qual a seu modo, debruçaram-se sobre esta questão, foi, porém com Augusto Comte e seu Positivismo que a objetividade se firmou e passou a ser uma categoria de destaque no debate científico-filosófico.
      O termo Positivismo provém do latim positum e significa o que está posto, colocado.  O Positivismo tem este nome porque ele pressupõe que a realidade é o que está aí, está posto, colocado na nossa frente! (GUARESCHI, 1991). Por isso mesmo no dizer de Comte (1973, p. 9), a ciência deve se preocupar com os fatos observáveis, pois a essência dos fenômenos é, segundo seu entendimento, inacessível,
No estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as suas causas íntimas, para descobrir, graças ao raciocínio e à observação, suas leis efetivas, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos resume-se de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares alguns fatos gerais.

Com este enunciado pode-se deduzir a preocupação de Augusto Comte com a questão da objetividade e da observação, atualmente dois pilares cruciais no discurso científico.  Discurso este que tem por incumbência a conformidade do conhecimento com a realidade.  Porém esta conformidade não é tarefa fácil, notadamente do aspecto ontológico, pois se a ciência, mesmo a positivista, procura uma aproximação mais correta possível com o fenômeno estudado, é sabido que o mundo objetivo, concreto, não se deixa captar por uma ciência metodologicamente enviesada. O dado na experiência empírica, nas ciências Empírico-Formais, é como o próprio nome anota um dado, ou dados, enquanto conjunto de informações científicas, não é mais do que um momento do processo do conhecer científico. Sendo por isso questionável a suposta apreensão do “mundo real” pela ciência empírica positivista. Portanto, se a apreensão não se dá ipso facto, é no mínimo muito controversa a experimentação animal como pressuposto correlacional epistêmico-biomédico para aplicação em seres humanos.  Portanto, o que deve ser considerado na atividade científica com relação à experimental animal é um questionamento crucial, existe justificabilidade epistemológica para tal prática e transposição dos seus resultados para os seres humanos?  Essa é uma pergunta basilar na metodologia científica que usa animais como modelos experimentais.

COMTE, A. Curso de filosofia positiva. 2ª Edição.  São Paulo: Abril Cultural, 1973.

CUPANI, A. A Objetividade científica como problema filosófico. periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/10067/14908

RABUSKE, E. Epistemologia das Ciências Humanas. 1ª Edição, Caxias do Sul: EDUCS, 1987.

GUARESCHI, P. Sociologia crítica: alternativas de mudança. 25ª Edição, Porto Alegre: Mundo Jovem, 1991.